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Bahia mantém desigualdade na distribuição de médicos e está abaixo da média nacional

Publicado em: 22/12/2020

por Jade Coelho

Bahia mantém desigualdade na distribuição de médicos e está abaixo da média nacional

Foto: Reprodução/Pixabay

Dados da edição 2020 da Demografia Médica no Brasil mostram a manutenção de um problema antigo no país: a desigualdade na distribuição destes profissionais em todos os estados. No ano em que o mundo foi impactado pela pandemia da Covid-19, que até esta segunda-feira infectou mais de 7 milhões de brasileiros e matou 187 mil pessoas no país, uma das conclusões do levantamento é de que a disponibilidade de médicos não é suficiente para enfrentar uma crise sanitária, e nem para alcançar o objetivo de acesso universal da população a serviços de saúde de qualidade.

 

 

A Bahia segue a tendência nacional e concentra a maioria dos seus profissionais na capital, mas ao observar a razão entre a população e o número de profissionais, a situação no estado é mais grave do que no país. Isso porque aqui foram identificados 1,64 médico por cada mil habitantes, enquanto o índice nacional é de 2,49.

 

Estão na Bahia 4,7% dos médicos do país, segundo dados de 2019 e 2020. O levantamento foi divulgado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Essa é a quinta edição do estudo da Demografia Médica no Brasil, que em 2020 completa dez anos.

 

São 24.413 médicos na Bahia. Desses 47,3% são mulheres e 52,7% homens. A média de idade dos profissionais é de 44,8 anos.

 

Os dados mostram que em 2020 foi a primeira vez na série histórica que nenhum estado apresentou razão menor que um médico por mil habitantes. O destaque entre os piores índices vai para o Pará (1,07) e Maranhão (1,08), que continuam sendo os com menor número de médicos em relação à população.

 

Distribuição de médicos por mil habitantes (clique para ampliar) | Fonte: Demografia Médica do Brasil 2020

Na outra extremidade se destacam sete estados com mais de 2,50 profissionais por mil habitantes, um seleto grupo que não inclui a Bahia.

 

O levantamento revela ainda que no conjunto das capitais há 5,65 médicos por mil habitantes, enquanto os habitantes do conjunto das cidades do interior contam com cerca de 1,49.

 

Ao observar as regiões do país os dados mostram que os moradores de municípios do interior de todos os nove estados do Nordeste contam com um ou menos médico por mil habitantes.

 

Em Salvador existem cerca de 14 mil profissionais. A razão na capital baiana é de 4,90, ao tempo em que no interior da Bahia o indicador é de 0,86.

 

ESPECIALIDADES

No Brasil as especialidades com maior número de profissionais são Clinica Médica (11,3%), Pediatria (10,1%), Cirurgia Geral (8,9%) e Ginecologia e Obstetrícia (7,7%). Juntas elas concentram 38% do total.

 

Na Bahia são 13,6 mil médicos especialistas. Sendo 2,1 mil em Clínica Médica, 1,7 mil em Pediatria, 146 em Medicina de Família e Comunidade, 1,5 mil Ginecologistas e Obstetras, 1,8 mil em Cirurgia Geral e 865 em Cardiologia.

 

VISÃO DO CONSELHO

Diante dos dados, o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) e conselheiro federal do CFM, Julio Braga, destaca que essa desigualdade e a concentração de profissionais nas capitais não são exclusivas dos profissionais de medicina. “Como na maioria dos estados e como a maioria das situações, há concentração na capital, locais com maior quantidade de serviços, não só de saúde, mas de todos os outros serviços. Salvador tem mais da metade dos médicos da Bahia. Isso ocorre com enfermeiros, dentistas, delegados, juízes”, exemplificou. 

 

A saída para melhor distribuição dos profissionais de medicina, na visão do Cremeb, começa com o estímulo para eles sejam direcionados para esses locais. “O profissional da Saúde precisa ficar próximo da população, mas para isso precisa de estímulo”, analisa Julio Braga. Para o médico, o problema está na maneira como está prevista a contratação desses profissionais no Sistema Único de Saúde (SUS). Ele chega a dizer que pesa o fato de não existir carreira, concurso e uma forma de contratação estabelecida.

 

“O SUS tem um problema crônico: é uma fábrica sem funcionário”, comparou. 

Braga sinaliza que é comum contratações por prefeituras do interior, que demandam que médicos se mudem para a cidade com toda a família, e que os contratos duram pequenos períodos e variam de acordo com as gestões. O fato causa instabilidade e afasta o interesse dos profissionais por esse tipo de vaga. 

 

“Precisa ter carreira, concurso público, para trabalhar na cidadezinha, local remoto. Um sistema de contratação que os médicos vão ter estabilidade, se programar, morar na cidade, ter salário, não muito alto, mas não irrisório”, argumenta o vice-presidente do Cremeb. 

 

Ele também chama a atenção em relação às especialidades. A maior demanda, segundo o Cremeb, é por profissionais especialistas em Saúde da Família.  No entanto, a área desperta pouco interesse, tanto que o levantamento mostra que na Bahia são apenas 146 médicos especialistas em Medicina de Família e Comunidade. “É uma das residências médicas que sobra vaga todo ano, estão pagando até complemento na bolsa de quem faz essas residência, mas ninguém quer porque não dá segurança”, argumenta Braga.

 

Estes profissionais atuam em uma área que o Cremeb aponta como a que precisa de maior capilaridade: a Atenção Básica. Ela lida com o acompanhamento da população, se ocupa do diagnóstico, para orientar o paciente sobre medidas de prevenção e, se necessário, de tratamento. A finalidade dessa especialidade é conhecer e acompanhar as pessoas por toda a vida, dentro do seu contexto e das suas complexidades. 

 

E Braga ainda acrescenta que o trabalho desses profissionais evita custos desnecessários. Segundo ele, a atuação e qualidade desses profissionais impacta diretamente o sistema de saúde em relação a pedidos de exames sem necessidade, cirurgias fora da hora, identificação tardia de cânceres e gravidez complicada. 

 

 “O médico que está na Atenção Básica não pode ser só ‘pedidor de exames’, precisa ter formação de qualidade, e infelizmente no SUS o que vemos é qualquer um serve, na maioria das prefeituras não tem critério de qualificação”, denuncia.

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