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RADICALISMO ISOLA AÉCIO NAS RUAS E NO PSDB

Publicado em: 02/12/2014
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Discurso que pregou impeachment da presidente Dilma Rousseff e fala em “organização criminosa” para se referir ao PT não encontra seguidores em volume suficiente para fazer diferença; ao optar pela radicalização verbal, senador Aécio Neves passa a impressão de ainda estar em campanha eleitoral; líderes do PSDB como o senador José Serra e os governadores Geraldo Alckimin e Marconi Perillo não o acompanham; presença por 12 anos no poder em Minas Gerais deixa flanco aberto para denúncias que esvaziam discurso da moralidade; fracasso de manifestação contra Dilma no sábado 29, em São Paulo, se mostrou fim temporão da eleição de outubro, mas Aécio não dá mostras de que corrigirá seu rumo.

Marco Damiani _247 – Debaixo do vão livre do Masp, no sábado 29, os cerca de 200 manifestantes que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff junto à  meia dúzia de  remanescentes que defenderam, em sábados anteriores, a volta dos militares ao poder, não reuniram volume suficiente para sair em passeata. Ficaram confinados ali mesmo, numa reunião bem menor do que as últimas. Esvaziado, mostrou ser o ato em que, finalmente, a campanha eleitoral terminou.

Não é esta mensagem, porém, que o candidato mais bem sucedido da oposição está procurando passar para o seu público. Ao frisar, na semana passada, que o impeachment é “uma das sanções” previstas para defeitos em prestações de contas de campanha e, neste final de semana, chamar o PT de “organização criminosa”, Aécio Neves mostrou, para muitos, que ainda não está disposto a descer tão cedo do palanque.

O problema para ele é que sua linha de ataque vai perdendo força à medida em que surgem fatos objetivos em direção oposta.

Na economia, o senador mineiro não assimilou a escolha do considerado ortodoxo Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Com o anúncio da presença de Levy no governo, os mercados reagiram positivamente. A Bolsa de Valores evoluiu, o dólar andou na normalidade e as agências de classificação de risco reagiram favoravelmente. Um cenário de fuga de investimentos está se dissipando para dar lugar ao do ajuste que o próprio Aécio queria em campanha.

Ele considera a adoção de diretrizes com base no tripé macroeconômica como uma espécie de apropriação indébita por Dilma. Em lugar de avistar uma ponte de diálogo no fato de Levy ter trocado ideias com Armínio Fraga durante a campanha, Aécio viu na situação passada e no desfecho um ato de espionagem. “É como se um diretor da CIA se tornasse um chefe da KGB”, comparou. Daí a chamar o PT de “organização criminosa” foi um passo.

Na Justiça, ministros do Tribunal Superior Eleitoral emitiram sinais de que as contas da presidente serão aprovadas, ainda que com ressalvas, a não ser em caso “de uma fratura exposta”. Com a participação de técnicos do BC e da Receita Federal, a análise que está sendo feita pelo ministro Gilmar Mendes, no STF, tende a ter mais força técnica do que política. Desse modo, barrar a prestação de contas do PT para a campanha presidencial não deverá ser tão simples como dar uma canetada isolada. Mesmo que isso ocorra, recursos caberão ao mesmo Supremo. Sem pressão das ruas, como se viu no sábado 29, o caminho para o impeachment se mostra bem estreito para ser uma opção para quem quer que seja.

FHC TOMOU LINHA BURRA – A radicalização de Aécio poderia nem ser vista como um problema, mas solução, caso viesse acompanhada de apoio. Ao menos de uma cúpula, já que o da rua nunca existiu. Mas também não é isso o que ocorre à volta da belicosidade do presidente do PSDB. Sem uma massa que possa mobilizar, Aécio também começa a construir, mesmo ocupando a chefia do partido, um certo isolamento frente aos principais líderes da agremiação. Ele parece ter se deixado empolgar pelo discurso de quem não tem nada a perder do ex-presidente Fernando Henrique. FHC disse ter “vergonha” da corrupção na Petrobras, mas horas depois se revelou que foi na gestão dele no Palácio do Planalto que se terminou com a exigência de licitações e concorrências para a assinatura de contratos com a estatal. A linha de FHC se mostrou burra, à medida em que o flagrou na cena da origem da permissividade que gerou oportunidade para fraudes bilionárias.

Têm ficado muito mais observando do que atuando para o conflito o senador José Serra, sempre um nome forte entre os tucanos, e os governador Geraldo Alckmin e Marconi Perilllo. Perillo, em discurso no qual procurou ser gentil com Aécio, de quem é amigo, ensinou:

– Governo não faz oposição a governo, libertando a senha para que toda uma ala do PSDB no Congresso passasse a seguir mais pela linha moderada do que a do extremo

A entonação de FHC não levou, porém, Aécio à vitória este ano. O candidato que ainda reclama da qualidade do resultado não conseguiu vencer em Minas Gerais, nem no primeiro nem no segundo turno, depois de ter sido oito anos governador e feito o sucessor por mais quatro. Na campanha eleitoral, denúncias que poderiam ser consideradas leves foram transformadas pela própria campanha tucana em grandes crises, até agora mal resolvidas. É o caso do aeroporto do município de Cláudio, do qual o candidato do PSDB não soube se desvencilhar. Ele construiu uma pista de pouso na fazenda de um tio, mas passou a dar explicações tão confusas para o assunto que terminou perdendo eleitoralmente.

Nos bastidores da política nacional, velhas raposas tem dificuldade para assimilar a estratégia do ex-candidato.

– Ele está se comportando como a linha de frente da nova UDN, mas a origem política dele é PSD de seu avô Tancredo Neves, conta um líder político fluminense que trabalhou para Aécio em seu Estado.

– Essa postura extremamente moralista pode é  saudável, mas não sei se combina com ele tanto assim.

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