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“A VIDA DO RIO É A VIDA DO POVO DO RIO”. Dom Frei Luís Cappio

Publicado em: 01/6/2019

A bacia do rio São Francisco pede socorro. O rio São Francisco pede socorro. E o socorro, desde o grito de alerta do bispo da Barra, D. Luís Cappio, em 2007, continua ecoando pelos meios acadêmicos e pelas populações ribeirinha. Todos pedem a revitalização da bacia do rio São Francisco. Pescadores, agricultores, pesquisadores e estudantes juntos, compartilharam experiências e discutiram a situação do rio São Francisco. O encontro foi promovido pelo CRAD – Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina e contou com uma homenagem à Dom Luís Cappio, bispo da Diocese de Barra, que realiza um trabalho em defesa do Velho Chico.

Por Silvestre Gorgulho-http://www.folhadomeio.com.br

O evento em Petrolina homenageou o ícone da preservação e revitalização da bacia do rio São Francisco: o bispo dom Luís Cappio. O bispo de Barra/BA já conquistou o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo (2009), o troféu João Canuto (2009) e o Prêmio da Paz (2008). Na década de 1990, ficou conhecido mundialmente após percorrer a pé os 2.830 quilômetros de extensão do Velho Chico.

A HOMENAGEM
Para dom Luís Cappio, a questão da transposição não é apenas técnica, mas também é um problema de ordem ecológica, econômica, social e ética. (Foto: Carlos Laerte)
A homenagem ao bispo dom Luís Cappio teve uma extensa programação que começou logo pela manhã com uma visita aos experimentos de revitalização da Caatinga desenvolvidos pelo CRAD, no Campus Ciências Agrárias, da UNIVASF. O final solene aconteceu no Auditório da Biblioteca do Campus Sede, com uma palestra ministrada por dom Cappio.
O religioso estudou teologia no Seminário Franciscano de Petrópolis, no Rio de Janeiro, e desde 1974, vive no semiárido nordestino. Dom frei Luís Cappio realizou trabalho de conscientização das comunidades ribeirinhas sobre a importância da preservação do rio, fazendo mobilizações de educação ambiental com os movimentos populares.
Para o diretor do CRAD, José Alves Siqueira, “o evento é um momento para refletir sobre a vida do rio e os deveres que a população deve ter para preservá-lo”.  José Alves Siqueira salientou que dom Cappio é símbolo de inspiração. “A sua luta pelo Rio São Francisco, por sua vida e conservação, é inspiradora. Nós precisamos destes elementos de inspiração para a sociedade, considerando os tempos difíceis em que vivemos”.
José Alves Siqueira, o bispo dom Luís Cappio e o empresário incentivador dos trabalhos pela revitalização do rio São Francisco, Rômulo Seabra. (Foto: Carlos Laerte)
O respeito e a admiração da comunidade ribeirinha e acadêmica para com o bispo dom Cappio. (Foto: Carlos Laerte)
O QUE É O CRAD
O Centro de Referência Para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD/UNIVASF) é um projeto coordenado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco e financiado pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Integração Nacional. Este projeto conta com a cooperação de várias instituições atuantes na Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e tem como objetivo promover a recuperação e a conservação da flora de áreas prioritárias para a conservação da Caatinga, situadas na BHSF.
BOX 1
História
DOM LUIZ CAPPIO, ATRANSPOSIÇÃO E O PRESIDENTE LULA
“Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho”
DOM LUIZ CAPPIO 
A GREVE DE FOME PELA REVITALIZAÇÃO DO VELHO CHICO
Em dezembro de 2007, o bispo dom Luís Cappio voltou à Capela de São Francisco, em Sobradinho (556km de Salvador), para fazer o que prometeu: greve de fome. E avisou: “Só deixo o jejum depois da retirada do Exército do canteiro de obras dos eixos Norte-Leste e arquivamento definitivo do projeto de desvio das águas do rio São Francisco”.
Para D. Luís Cappio, a questão da transposição não é apenas técnica, “mas também é um problema de ordem ecológica, econômica, social e ética”. Em dezembro de 2007, em carta ao povo do Nordeste ele disse que sabe que seu gesto “causa estranheza e incompreensões a muitas pessoas, mas não culpa a ninguém, pois a maioria acha que a transposição resolve a seca (..). O que precisa é construir uma nova mentalidade a respeito da água e combater o desperdício, valorizando cada gota”.
Em 9 de dezembro de 2007, houve romaria em defesa do Velho Chico em solidariedade a dom Cappio. Havia mais de cinco mil pessoas, bastante movimentação, música e discursos. O bispo completava 13 dias em jejum.
Em 2005, o bispo D. Cappio ficou conhecido no País por ficar 11 dias em greve de fome contra a transposição.  À época, o protesto surtiu efeito e o governo decidiu suspender o projeto, embora provisoriamente. A obra também havia sido inviabilizada por meio de liminares na Justiça. Mas, como é uma das prioridades do Programa de Aceleração do Crescimento, a transposição voltou a ser tocada. Após um acordo provisório com o governo Lula, D. Luís Cappio disse preferir aguardar os acontecimentos e que, se o acordo não fosse cumprido, voltaria para Cabrobó para nova greve de fome, reiniciando a luta. Cumpriu a promessa. Em 2005, Cappio foi visitado por romeiros e fiéis e teve sua imagem reproduzida em santinhos confeccionados pela prefeitura de Barra e distribuídos em Cabrobó, trazendo a frase: “Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho”.
“ME CONVENÇA, ME CONVENÇA!”
(De Lula para o bispo dom Luís Cappio, de Barra-BA, que saiu do Palácio do Planalto atacando o projeto da transposição).
O bispo da Diocese de Barra (BA), dom Luís Flávio Cappio, que fez greve de fome de 10 dias, em setembro de 2005, para protestar contra a transposição do rio São Francisco, foi recebido dia 15 de dezembro, no Palácio do Planalto, pelo presidente Lula. O bispo dom Thomaz Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, acompanhou dom Luiz Cappio ao Palácio do Planalto.
O convite para que o bispo visitasse Lula foi um dos itens do acordo que suspendeu a greve de fome de Dom Cappio, no início de outubro.
Após duas horas de conversa – dez minutos a sós e o restante com a presença dos ministros Ciro Gomes, da Integração e Jacques Wagner, das Relações Institucionais – o presidente Lula e o bispo Luiz Cappio não saíram do impasse em torno da execução do projeto de transposição do rio São Francisco.
O presidente Lula chegou a insistir com o bispo – “então me convença, me convença” – mas ambos permaneceram irredutíveis. Como não houve acordo, o projeto foi reiniciado.
BOX 2
A FRAUDE DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO
A Responsabilidade histórica sobre um projeto duvidoso
Para tirar as dúvidas, vão aqui os 10 pontos duvidosos que precisam ser considerados, sobre o projeto de Transposição do Rio São Francisco. Muito mais importante que a transposição é um projeto permanente de revitalização da bacia do Velho Chico.
1 – ADENSAMENTO – O projeto incentiva o adensamento humano em uma região árida, inóspita. Isso acarretaria a necessidade de mais água no futuro.
2 – CUSTO DA OBRA – O custo inicial estimado de R$ 4,5 bi alcançou a cifra de mais de R$ 20 bilhões. Importante: tudo isto com recursos próprios, porque o governo não conseguiu financiamento externo, pois os organismos internacionais se posicionaram contra o projeto.
3 – GESTÃO EFICIENTE –  Especialistas afirmam ser possível aumentar a oferta de água local apenas com a interligação mais eficiente dos açudes existentes, coleta e armazenamento de água de chuva, e perfuração de poços artesianos. Se não há água para as épocas de seca mais severa, confirma-se que a capacidade suporte do ambiente está esgotada ou próxima de seu limite.
4 – CONSUMO DE ENERGIA – A necessidade de elevação da água por meio de potentes bombas (160m de altura no Eixo Norte e de cerca de 300m no Eixo Leste) consome porção relevante da energia produzida na região.
5 – REAL VOLUME DE ÁGUA – Existem dúvidas sobre o real volume a ser bombeado: será retirado um volume constante de 26 m3/s, que passará a 127 m3/s, caso a barragem de Sobradinho alcance seu nível máximo e houver vertimento.
6 – DANÇA DE NÚMEROS DE VAZÕES – Uma pergunta: ou há uma superestimação do equipamento, que usaria apenas a quinta parte de sua capacidade, ou não há garantias não seriam utilizados os 127 m3/s da capacidade total? Existe uma verdadeira “dança dos números” em relação às vazões. Para os leigos, fica apenas a confusão!
7 – LIMITE DE OUTORGAS – Documento da Agência Nacional de Águas diz que em 2005, o somatório das outorgas concedidas para captação na bacia alcançava 635,7 m³/s, ou seja, já tinha se ultrapassou o limite de 360 m³/s de vazão máxima alocável/outorgável.
8 -DESTINAÇÃO DA ÁGUA –  Apesar de o governo afirmar que o projeto visa exclusivamente o abastecimento humano, sabe-se que também interessa às fazendas de camarões e de criação de tilápias, e aos grupos produtores de frutas irrigadas, além de empreiteiras e fornecedores de materiais para a obra .
9 – RISCO DE FAVELIZAÇÃO – Mesmo desconsiderando tudo o que foi dito, os 720km de canais a céu aberto podem ser ocupados pela população carente. Há risco de uma favelização dos canais, trazendo junto o lixo e esgotos. A perda da qualidade da água é iminente, sem falar da evaporação.
10 – IMPACTOS DOS PEIXES – Dos 44 impactos listados no RIMA – Relatório de Impacto Ambiental, somente
11 são considerados positivos. Há muitas incertezas, como um tema negligenciado até o presente: a fauna de peixes. O grande público está alheio a essa discussão, por desinformação.
BLOCO 3
A UNIVASF E SEU PAPEL SOCIOAMBIENTAL
Por CLÁUDIA NASSER – Graduada em Gastronomia e Mestranda em Turismo pela Universidade de Brasília.
Ao participar do evento realizado pelo CRAD/UNIVASF que discutiu os impactos em torno do rio São Francisco, a partir da sua transposição, senti a importância de ver a comunidade acadêmica e ribeirinha refletir sobre a vida do Velho Chico e os deveres que a população deve ter para preservá-lo. Em primeiro plano foram apresentadas as atividades desenvolvidas pelo CRAD com plantas típicas da Caatinga, com o intuito de trabalhar a recuperação do Bioma Caatinga. Os participantes foram conduzidos a conhecer as instalações e trabalhos de laboratório daquela unidade, como a coleta, identificação e catalogação das espécies, bem como o banco de germoplasma ali instalado para a preservação das mesmas.
COMUNIDADES TRADICIONAIS
O que chamou a atenção foi a iniciativa do CRAD em convidar para uma mesa redonda e debate, representantes de comunidades tradicionais que vivem às margens do Rio São Francisco. Este momento deu voz àqueles que diretamente sofrem os efeitos da transposição.
Foram quatro comunidades representadas pela Associação de pescadores e pescadoras de lagoa do Curralinho/Itamotinga (Maria Alice Borges da Silva – Juazeiro/BA), Articulação de Fundo e fecho de pasto da Bahia ( Zacarias Ferreira da Rocha – Casa Nova/BA), Povo Indígena Tumbalalá (Maria Tumbalalá – Abaré/ Curaça/ BA) e a sociedade civil representada pelo pesquisador popular do Oeste da Bahia, Hermes Novais Neto de Santa Maria da Vitória/BA.
Estes representantes levaram para a Universidade a dura realidade de seus povos que sofrem com a redução drástica do volume de agua proveniente do uso pelo agronegócio, a poluição causada pelos esgotos, a contaminação provocada pelas mineradoras e defensivos agrícolas.
Esta é uma iniciativa que mostra o importante papel da Universidade nesse contexto. Ação como essa justifica o verdadeiro papel da Univasf. Pelos conhecimentos adquiridos mediante às pesquisas que a Universidade, aliada a essas comunidades, pode contribuir para a conservação da biodiversidade, ao mesmo tempo que coopera com a justiça social.
CIDADÃOS ÉTICOS
Esse debate é também relevante a partir do momento que aproxima o jovem estudante dos desafios que o aguardam do lado de fora da Universidade e o quão importante é que eles se formem profissionais e sobretudo cidadãos éticos.
O ponto mais alto do Evento foi a palestra de Dom Luiz Cappio (bispo da Barra/BA) cuja vida de dedicação em defesa do Rio São Francisco é de conhecimento de todos. Com sabedoria, ele levou a todos da plateia a uma profunda reflexão sobre o importante papel de cada um, seja indivíduo, instituição pública ou privada, na conservação de um mundo melhor, aquele que queremos deixar para nossos filhos.

 

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